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Humanas, demasiado humanas

“Cidades para Pessoas”, do arquiteto dinamarquês Jah Gehl, disponibiliza ferramentas que possibilitam avaliar os espaços urbanos a partir da métrica do encontro, da vida pública


Copenhague
Rua em Copenhague, capital da Dinamarca: cidade amigável para pedestres e ciclistas

Qual a escala para uma cidade mais humana?


Essa é uma das perguntas que estruturam o pensamento de Jan Gehl (1936), arquiteto dinamarquês dedicado a melhorar a qualidade de vida nas cidades por meio da reorientação do planejamento urbano em favor das pessoas. Com tal propósito, ele fundou em 2000 a Gehl Architects, empresa voltada a uma prática de desenho urbano focado nos habitantes das urbes. Suas ideias deram corpo a uma obra incontornável, cujo título já diz tudo: Cidades para Pessoas. Estruturado em dez capítulos, o livro é percorrido pelas motivações e a concepção de uma cidade mais humana.


O trabalho de Gehl ganhou notoriedade como uma alternativa conceitual e concreta ao planejamento que, por décadas, havia simplesmente deixado de lado — e, em larga medida, continua deixando, por mais espanto que isso possa provocar — o papel de crianças, adultos e idosos em suas vivências como pedestres, ciclistas, habitantes, enfim, dos territórios urbanos. O aludido “espanto” se justifica amplamente. Afinal, não somos nós, as pessoas, que usamos as urbes, criadas, aliás, claro, por seres humanos? (Primeiro nós as moldamos; depois elas nos moldam, destaca o autor.) Diante de tal despautério, o bom-senso de Gehl aponta para ações que levem a processos de planejamento urbano mais inclusivos, sustentáveis; ao desenho de lugares de encontro que potencializem a vitalidade e a humanidade, que é, de fato, a razão de ser das cidades.


Embora o escritório Gehl Architects tenha apenas 23 anos, e Cidades para Pessoas haja sido lançado somente em 2010 — a tradução brasileira é de 2013 —, desde a década de 60 o arquiteto dinamarquês se ocupa da problemática que gerou as reflexões que o tornariam célebre. Na linha do que expressavam os americanos Jane Jacobs (1916-2006) e William H. Whyte (1917-1999) e o austríaco Christopher Alexander (1936-2022), Gehl pôs em xeque os processos de planejamento e renovação urbana preponderantes naquela época.


“Os modernistas rejeitaram a cidade e o espaço da cidade, mudando seu foco para construções individuais”, escreve ele em sua obra canônica. Poluição, doenças, patrimônio, complexidades — todas essas questões eram, para os olhos dos “modernos”, ocorrências que deveriam ser apagadas e substituídas por novos modelos de civilização urbana. Isso se traduziu em projetos monofuncionais, que separavam os usos e as dinâmicas das pessoas, provocando grandes translados, o abandono das centralidades, as disrupções nas identidades e culturas históricas e, principalmente, uma segregação na sociedade. Esse “modelo moderno” espalhou-se por diferentes cantos do planeta — chegando com muita força à América Latina, notadamente ao Brasil.


Disposto a entender as mudanças desse paradigma, Gehl acompanhou uma mudança em Copenhague que começava abrindo aos poucos as ruas da capital dinamarquesa para os pedestres. Os resultados foram tão positivos para a segurança viária, a economia local e a identidade turística que o exercício se transformou em política pública — e atualmente a cidade é referência global no desenho de infraestrutura e ambientes favoráveis para pedestres e ciclistas. Trabalhando na observação e criando métricas de avaliação com pesquisadores da Escola de Arquitetura de Royal Danish Academy, Gehl foi evidenciando a relação entre incremento de áreas livres, o uso das pessoas e os benefícios sociais, ambientais e económicos.


Com a experiência bem-sucedida realizada em seu país, o arquiteto foi amadurecendo um pensamento crítico e desenvolvendo métodos para estudar as cidades na escala humana e elaborar propostas para o desenho da forma urbana que surgem como resultado de pesquisas empíricas ancoradas nos comportamentos das pessoas nos espaços das urbes. Como essas pessoas usam os espaços das cidades? Quais as condições que levam os habitantes dos territórios urbanos a decidirem onde ficar, onde se sentar, para onde e locomoverem? Quais os elementos e ambientes que fomentam o encontro, a coletividade, a economia na escala humana? Será possível pensar numa cidade que reconheça a vida em seus processos de desenho urbano, de sua arquitetura?


O trabalho de Gehl — que é casado com uma psicóloga, fato que considera substancial para o seu pensamento — acabaria evoluindo até culminar com a criação de um modelo de abordagem da vida pública a partir do que ele denominou como “os quatro objetivos” para uma “política” na área: vitalidade, sustentabilidade, segurança e saúde.


A contribuição de Gehl para a ciência das cidades, que seu livro tão bem sintetiza, é a análise de padrões de uso e a criação de indicadores da vida pública nos espaços livres. Como exemplo disso poderíamos citar a categorização das atividades entre aquelas que as pessoas geralmente têm que fazer (ir para o trabalho ou a escola), aquelas que acontecem sob qualquer condição e as atividades opcionais (associadas ao prazer da cidade, como caminhar em um calçadão, sentar-se em um parque). Uma cidade que valoriza a vida urbana verá mais pessoas optando por usá-la como espaço de bem-estar e de lazer. Nas páginas de Cidade para as pessoas — um autêntico guia, que disponibiliza ferramentas para avaliar os espaços urbanos a partir de métrica de vida pública —,  o autor compartilha imagens de diferentes metrópoles mundo afora, para comentar, por exemplo, o impacto da utilização comercial de baixo porte no térreo de prédios, a mistura dos usos dos edifícios e a diversidade arquitetônica. A partir da observação e da contagem repetitiva, acredita Gehl, pode-se determinar associações — e, com isso, desenhar mudanças.


O impacto do pensamento do arquiteto dinamarquês e seus métodos analíticos são hoje matéria de estudo no âmbito acadêmico, de organizações da sociedade civil e — importantíssimo frisar — das políticas pública. Seus ensaios e trabalho colaborativo, em campo, têm inspirado e incidido na transformação de espaços públicos em Nova York, São Francisco, Cidade do México e São Paulo. Fruto de um trabalho interinstitucional, e de pesquisas e levantamento de campo da equipe de Gehl Architects, o projeto do Vale de Anhangabaú, na capital paulista, surge como resposta às evidências do uso e das possibilidades de transformação. Essa experiência nos fornece um caso concreto para continuarmos moldando nossas ruas, praças e calçadas em espaços de convivência por todo o país. Não é pouco para qualquer autor — para qualquer obra.


Será que estas experiências exitosas e os recursos que os arquitetos têm à sua disposição podem ser usados em outros lugares das cidades brasileiras? Como o desenho de Lina Bo Bardi (1914-1992) do vão livre do Masp impacta a vida cultural dos paulistanos? Quais as dinâmicas de uso dos automóveis versus o de pedestres e ciclistas no Elevado Presidente João Goulart nos horários em que ele está aberto ou quando é fechado e qual o potencial disso na valoração do solo do entorno?


Ao final da leitura de Cidades para Pessoas, não resta dúvida de que a obra constitui uma janela para o cérebro e a alma que permite enxergar como nós, cidadãos urbanos, usamos e vivenciamos os espaços onde vivemos — e o que podemos fazer para qualificar esse uso e essa vivência.

 

Texto de autoria de Laura Janka, arquiteta e urbanista, coordenadora do Núcleo Arquitetura e Cidade do Laboratório Arq.Futuro de Cidades do Insper, originalmente publicado na coluna do Arq.Futuro no Insper, em 08 de maio de 2023. Confira o texto original aqui.

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